Entrevista para a Revista FOCUS - Portugal
É de fato, possível estimular o desenvolvimento das capacidades na infância?
R - Sim! A personalidade de um indivíduo começa a ser formada desde a concepção (a parte chamada “temperamento”, uma carga biológica com a qual nascemos e o caracterizará como tímido, ousado, otimista ou melancólico no futuro) e se estende até o final da primeira infância (5 a 6 anos). Nesta fase a parcela da personalidade chamada “caráter” será formada e esta é representada pelo aprendizado, pelas experiências com o meio. Como a maior parcela de experiências que terá nessa fase (5 aos 6 anos), será dentro de casa com os pais, estes serão então, os principais responsáveis pelos estímulos ao desenvolvimento das capacidades futuras desejadas, principalmente pelo modelo de referência que representam para os filhos.
Pais esclarecidos e empenhados dão filhos brilhantes?
R – Não somente com essas qualidades. Além disso, precisarão ser afetivos, motivados, dispostos a aprender, dispostos a mudanças e ajustados psico-socialmente. Sobre “ajustamento”, apresento um conceito de Maslow, um psicólogo americano: O indivíduo ajustado caracteriza-se por ser mais espontâneo e comunicativo: Menos bloqueado, menos crítico de si mesmo, mais aberto e honesto, mais facilmente expressa seus pensamentos e opiniões sem medo do ridículo. È intelectualmente flexível, não teme o mistério e o desconhecido, ao contrário é atraído por ele. Conserva características próprias da criança como a vivacidade e inocência, o que, juntamente com uma inteligência adulta, torna-o pessoa muito especial.
E aqueles pais que, mesmo não tendo uma grande escolaridade, conseguiram estimular os filhos?
R - A resposta anterior não cita “escolaridade”. As características apresentadas ali se referem a habilidades inatas e adquiridas nas relações sociais da experiência de vida das pessoas. Conheço péssimos pais com altos níveis de escolaridade.
Os pais precisam de formação para lidarem (e estimularem de forma adequada) com um ser tão complexo como é um filho?
R - Certa vez uma mãe perguntou-me: “como se dá limites para adolescentes? – e eu respondi: “não tenho a menor idéia!” – Ela ficou surpresa com a minha resposta achando que eu estava brincando e insistiu dizendo que o filho adolescente não tinha limites. A minha resposta foi: as crianças nascem pequeninas, com alguns centímetros e pesando pouco mais de três quilos, não nascem adolescentes. Assim, os limites devem ser estabelecidos desde sempre (respeitadas as devidas proporções no que se refere ao desenvolvimento). Na medida em que o filho for crescendo, os limites deverão sofrer alterações de acordo com os níveis de responsabilidade que ele apresentar. É um grande erro, ser permissiva durante toda a infância e depois querer, de uma hora para outra, dar limites ao filho. Ele não compreenderá e dificilmente aceitará.
Essa mãe, mais tarde, mandou-me um e-mail de agradecimento, por faze-la perceber a grande falha que cometera na educação do filho. E completou: a gente não faz curso para ser mãe e por conta disso cometemos imensos erros. - Verdade, amar os filhos não basta para garantir o sucesso na educação.
Em que sentido deve ser essa formação?
R - No sentido mais abrangente possível. Desde a busca por orientação de pais experientes que obtiveram sucesso na educação dos filhos, passando pela observação e até na leitura de material sobre relações sociais e educação, pertinentes. Existem literaturas cientificamente fundamentadas que, seguramente podem ser fonte de orientação para a educação dos filhos. Ano passado lancei um livro com o título “Os 10 erros que os pais cometem” (como preveni-los ou corrigi-los?) com objetivo de oferecer aos pais um material todo fundamentado na Psicologia do Comportamento Humano, que pudesse orienta-los para a uma educação dos filhos com maiores possibilidades de sucesso.
No seu livro "Pais Competentes = Filhos Brilhantes", o Sr. aponta os maiores erros na educação dos mais novos. Generalizadamente, quais são esses erros?
R - Agressão, rejeição e inafetividade são os mais graves. Os outros são:
Superproteção: fazer pelo filho aquilo que ele poderia e deveria fazer sozinho. As crianças superprotegidas não desenvolvem repertório de habilidades para lidar com as frustrações e tendem a sofrer por isso no futuro quando os pais não estiverem ao seu lado.
Negligência: Toda ausência de prevenção que possa, de alguma forma, prejudicar o desenvolvimento sadio do filho como: permissão ou estímulo a alimentação desapropriada, ameaças que nunca serão cumpridas, ausência psicológica, etc...)
Competição e desautorização: pais que não estão sintonizados com relação aos limites a serem dados ao filho (um autoriza e o outro proíbe) ou que competem entre si (característica de alguns pais separados) deixando o filho no meio das suas batalhas pessoais.
Desinformação: Pais desinformados têm grandes dificuldades em se comunicar com os filhos. Os jovens de hoje possuem um instrumento chamado internet que lhe dá instantaneamente a informação que quiserem. Muitos pais ainda possuem alguma resistência em utilizar esse recurso e priorizam a experiência. Os jovens não respeitam quem não é tão informado quanto eles. Recentemente a mãe de uma pré-adolescente de 13 anos, perguntou à filha se ela já havia “cheirado” maconha. A garota precisou orientar a mãe informando-a que não “cheira-se maconha e sim, “fuma-se”. – Percebe-se nesse exemplo, que havia boa vontade e interesse da mãe em ter uma conversa sobre o uso de drogas com a filha. No entanto, coitada! Completamente desinformada, foi motivo de chacota de toda a classe quando a filha deu esse depoimento em sala de aula.
Deficiência na comunicação: Pais sem as mínimas habilidades sociais de comunicação. Inassertivos ou agressivos quando se expressam, propiciam grandes distorções na comunicação com os filhos. São os que costumam dizer “não porque não, e está acabado!” Para ilustrar, Artur da Távola produziu um texto sobre o tema e apresentou 11 modelos de distorções na comunicação. Quatro delas:
1) Em geral, o receptor não ouve o que o outro fala; ele ouve o que o outro não está dizendo.
2) O receptor não ouve o que o outro fala; ele ouve o que quer ouvir.
3) O receptor não ouve o que o outro fala; ele ouve o que imagina que o outro ia falar.
4) Numa discussão, em geral, os discutidores não ouvem o que o outro está falando; eles ouvem quase que só o que estão pensando para dizer em seguida.
Resistência a mudanças: Refere-se aos pais que não se atualizam com as mudanças de comportamento das gerações contemporâneas. São os que vivem dizendo “no meu tempo não era assim..” - “se eu falasse assim com o meu pai...” – Os conflitos entre gerações ocorrem principalmente porque os mais velhos querem manter tudo como está enquanto os mais jovens querem revolucionar, mudar tudo.
Modelos negativos de referência: Certa vez, conheci um jovem que falava muitos palavrões. Mais tarde tive a oportunidade de conhecer o pai dele e percebi que este falava ainda, mais palavrões do que o filho. Esse é um exemplo do poder de modelo que os pais exercem sobre os filhos, principalmente na primeira infância. Mais tarde essa influência poderá ser dar no uso de drogas (cigarro e bebidas consumidos em casa na frente dos filhos) alimentação inapropriada (refrigerantes, doces, gorduras, frituras consumidos às refeições) e chegar até a constituição distorcida de valores sociais humanos como Cidadania, Justiça, Respeito, Moral e Ética. Nesse caso, pais que priorizam “levar vantagem”, por exemplo, poderão modelar filhos a não respeitar valores.
Na era digital quais são os maiores desafios educativos?
R - Acompanhar os filhos nesse mundo virtual do universo cibernético. Como eu já disse, nós os mais velhos, temos uma natural resistência às evoluções tecnológicas e por conta desse fenômeno, muitas vezes não nos atualizamos suficientemente para acompanhar nossos filhos. Eles são exímios manipuladores da “máquina”, conhecem profundamente os mais variados atalhos. São capazes de nos enganar com a maior facilidade nos fazendo acreditar que estão no computador realizando a tarefa da escola e pesquisando assuntos pertinentes quando, na verdade, estavam batendo papo no orkut , jogando ou navegando em sites pornográficos. Quando percebem a nossa eminente presença fazem com que apareça na tela do computador somente o conteúdo educativo com um único toque no teclado. O diálogo ainda é o melhor caminho. Tentar conscientizar o filho ainda criança sobre os riscos e prejuízos que alguns links podem representar é saudável, no entanto, nem sempre somos ouvidos. Com relação e isso, alguns especialistas publicaram materiais capazes de nos capacitar a proteger nossos filhos. Por mais que não entendamos profundamente do assunto, devemos buscar esse tipo de ajuda e instalar bloqueios nos computadores de casa, determinar horários para a navegação, ficar mais próximos dos filhos e protege-los do excesso e da dependência do mundo virtual.
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