Confira abaixo na íntegra a entrevista publicada pela Revista Eletrônica UNINTER.COM:
Estabelece a Constituição Federal brasileira, em seu artigo 226: "A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado". Essa instituição, conhecida por todos, atende a um dos reclames da ordem social, construída a partir do bem estar e da justiça social, em atenção à dignidade humana e sob a proteção do qual deve nascer todo ordenamento jurídico. Mas será que, até hoje, isso continua valendo, de maneira firme e concisa, como expressa a Constituição?
A entrevista desta quinzena quer discutir junto ao leitor questões como essa. Para isso, o professor e psicólogo Caio Feijó [1] é o convidado para falar um pouco mais sobre famílias, suas relações modernas, conflitos e papéis.
U: O que podemos considerar como uma instituição familiar?
CF: É constituída pela composição física de seus membros de várias gerações, regidos por valores sociais como moral e ética, por exemplo, e outros valores como os espirituais, resultado dos hábitos e de uma herança cultural, transmitida de pais para filhos ao longo do tempo.
U: Como ela está posicionada na sociedade atual?
CF: Cada vez mais a instituição familiar se vê ameaçada pela sociedade atual. Os valores da família muitas vezes são substituídos por valores sociais modernos, localizados, como, por exemplo, “ter” em vez de “ser”. Por conta disso, alguns jovens rompem com os valores familiares em nome do sucesso profissional. Esse fenômeno, sem dúvidas, poderá causar uma mutilação na herança cultural das próximas gerações.
U: Qual seria a principal característica da família moderna?
CF: É a necessidade da sobrevivência. Comparando com, no máximo, duas gerações passadas, a saída da mulher para o mercado de trabalho é o grande diferencial. No passado o homem era o provedor enquanto a mulher, além das tarefas domésticas, tinha a função de transmitir os valores e a cultura familiar à prole. Hoje o casal é ausente. Em qualquer classe social, saem os dois para trabalhar e os filhos ficam aos cuidados, muitas vezes, de pessoas com hábitos, crenças e valores até antagônicos aos da família. Esse fenômeno poderá pôr em crise essa família e, principalmente, as gerações futuras.
U: A instituição familiar está em crise?
CF: Sim! É muito comum ouvir de crianças na escola, frases como: “o marido da minha mãe” ou “a mulher do meu pai”, ou “não sei o que o meu pai faz”, ou “não sei se a minha mãe virá”. Por mais que essas crianças tentem expressar esses conteúdos com naturalidade, é fácil perceber nos olhos delas uma profunda tristeza. Invariavelmente, percebe-se no comportamento dos pais um conseqüente sentimento de culpa.
U: Quais os principais problemas que as famílias enfrentam hoje?
CF: Educar os filhos! Muitos pais não têm a mínima noção sobre os passos corretos de uma educação moderna com boas possibilidades de sucesso. Alguns, com profunda demonstração de culpa, relatam que quando saem de casa pela manhã, os filhos “ainda” estão dormindo e quando voltam à noite, eles “já” estão dormindo. Muitas dessas famílias estão delegando à escola a educação social que deveriam dar aos filhos. Aí surge outra questão: os professores, em geral, não estão preparados para isso. Foram formados para oferecer a educação pedagógica e freqüentemente têm que fazer as vezes dos pais no ambiente escolar. Outra questão é que, em alguns casos, os filhos são mais informados do que os pais sobre determinados assuntos como sexo e drogas, por exemplo. Esses jovens, quase sempre, são os que estão noite e dia frente a um computador, acessando sites, blogs, chats etc. e muitos pais ainda têm resistência em se atualizar nessas áreas.
U: Em sua opinião, hoje, o que pesa mais numa relação familiar: a separação dos pais ou o convívio de aparências?
CF: Quando alguns valores como respeito, justiça, humanismo, cidadania, moral e ética mantém-se preservados no comportamento do casal, a manutenção do convívio entre eles por aparência, proporcionará, pelo menos um benefício: a boa estrutura psicossocial dos filhos.
U: Como o senhor avalia os casamentos gays? Há problemas para os filhos?
CF: Casais gays deveriam abrir mão de ter filhos (pagar o preço). A cobrança social é muito cruel para que uma criança se submeta a ela. Os gays podem ter essa escolha, estão preparados (ou deveriam estar) para o forte preconceito social, e muitas vezes sabem muito bem como lidar com tudo isso, mas uma criança poderá sofrer fortes conseqüências psicológicas futuras. A sociedade, em geral, não está madura o suficiente para lidar com esse fenômeno.
U: E filhos gays? Eles ainda desestabilizam as famílias mais tradicionais?
CF: E como! Tive várias experiências em consultório nas quais os pais traziam seus filhos gays para serem “consertados”. Nesses casos, invariavelmente o meu maior desafio era trazer “os pais” para a terapia. Alguns mais resistentes, quando recebiam a informação de que o filho era feliz e que não tinha queixas (a não ser o preconceito dos pais), chegaram a afirmar “prefiro morrer” ou até “prefiro o meu filho morto!”
U: Como mães solteiras ou pais separados podem compensar a falta do outro?
CF: Proporcionando condições para que a figura do pai ou da mãe ausente seja substituída, de preferência por algum membro da família que possua empatia com a criança como um tio ou uma avó, por exemplo. Eles substituirão, mesmo que precariamente, a figura masculina ou feminina ausente na vida da criança. Isso é muito importante.
U: A figura do pai na sociedade atual perdeu sua característica anciã?
CF: Essa característica era marcante até meados do século passado, no máximo, ou seja, uma época em que os casais podiam ter muitos filhos. Assim, era possível identificar pais mais velhos com maior freqüência do que no atual momento, já que os casais, em média, têm dois filhos no início do casamento.
U: E as drogas? Hoje elas comungam um papel coadjuvante na maioria das famílias?
CF: Com certeza! No ano passado, a revista Veja publicou um importante resultado de pesquisa sobre o uso de drogas pelos adolescentes. A manchete de capa foi “A questão não é saber se o seu filho vai ou não experimentar maconha, e sim, quando!” No entanto, somos uma sociedade hipócrita, pois quando o nosso filho bebe cerveja ou outra bebida alcoólica, ou fuma, costumamos aceitar com naturalidade, mas se ele usar maconha, mesmo que socialmente, ficamos perplexos. Sobre esse assunto, tenho um artigo no meu site www.caiofeijo.com.br intitulado “Um fantasma chamado maconha” que dá uma idéia mais profunda sobre o tema.
U: Qual seria seu principal conselho aos pais que hoje estão em dúvidas sobre como educar seus filhos?
CF: Tenho alguns conselhos aos pais, resultado de pesquisas e da proposta da psicologia do comportamento humano:
- Sejam modelos de referência aos filhos. Atitude ética, respeito às diferenças, justiça, atos de cidadania e busca de consenso nos conflitos deverão fazer parte da rotina comportamental dos pais. O “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço” geralmente não dá certo. Os filhos modelam, com muito mais intensidade, principalmente o comportamento dos pais.
- Procurem ser bem informados acerca dos temas de interesse dos seus filhos, como drogas, sexo e música, por exemplo. Procurem compreender com mais empatia os interesses deles e aceitar as mudanças nos hábitos de cada geração. Isso facilitará a comunicação com eles.
- Ofereçam afeto e atenção aos filhos. Muitas vezes vale mais a qualidade da relação do que a quantidade. Essa atitude é o principal fator na formação dos vínculos de confiança entre pais e filhos. Algumas mães que trabalham fora relatam bom desenvolvimento do filho e boas relações familiares por conta de hábitos de ligar várias vezes durante o dia para o filho, demonstrando interesse pelas questões dele, como lições de casa, por exemplo, e quando chegam em casa à noite, dedicam com intensidade alguns minutos com o filho.
- É necessário participar (mesmo que não fisicamente) da vida dos filhos. Saber o nome dos seus amigos e professores, em quais matérias tem dificuldades, do que mais gosta, do que não gosta, onde moram os amigos, quem são os pais deles, o que fazem, enfim, demonstrar verdadeiro interesse por eles e pelo seu universo.
- Estabelecimento de limites é prerrogativa e obrigação dos pais. Os filhos devem ter limites desde sempre, em todos os aspectos (horários, higiene, obrigações escolares, internet, TV, etc.). No entanto, à medida em que vão crescendo e demonstrando responsabilidade, será necessário maior flexibilidade nos limites estabelecidos. “Minha filha só vai namorar depois dos quinze” não pode ser caracterizado como um limite equilibrado. Existem jovens de 15 anos com muita responsabilidade e outros com 30 completamente irresponsáveis. Assim, os critério para o limite deverão ser proporcionais aos níveis de responsabilidade de cada filho.
Nota:
Especialista em Psicologia Clínica, mestre em Psicologia pela UFPR, professor licenciado de “Gestão de Conflitos” da Facinter, professor licenciado de “Psicologia Aplicada” da Famec. Pesquisador na área das relações professor/aluno e pais/filhos e autor dos livros Pais Competentes, Filhos Brilhantes, Preparando os Alunos Para a Vida; Os 10 Erros Que os Pais Cometem e Sexualidade, Adolescente e Uso de Drogas.
Fonte:
Revista Eletrônica UNINTER.COM
http://revista.grupouninter.com.br
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